Intel recusando garantia? Adeus RMA da Intel?



Nas relações internacionais há a expressão "conflito congelado", quando temos uma crise ou mesmo uma guerra que, apesar de à vista não haver ataque ou qualquer tipo de beligerância, existe um impasse não resolvido que a qualquer mudança no equilíbrio das forças, pode gerar um embate.
Pois a indústria do hardware tem um conflito congelado há anos. Uma disputa entre fabricantes de processadores, placas-mãe, memórias, consumidores e órgãos de defesa do consumidor. Tudo em um equilíbrio delicado movido mais pelo "modus operandi", a forma como as coisas são feitas, do que o escrito em termos de garantia e procedimentos padrão de RMA.
Afinal, como funciona o processo de garantia quando você faz overclock em seu sistema?

Overclock e garantia
Modificar as frequências de operação de um hardware está entre os tópicos favoritos de entusiastas do segmento. É muitas das vezes esse o momento onde nos sentimos mais gratificados por nos aprofundarmos no estudo e compreensão de como peças de computador operam, pois é através do overclock que conseguimos obter mais performance e assim extrair mais das peças de nossa máquina.
Componentes eletrônicos operam em ciclos, seja de processamento, seja de leitura e escrita de dados, por exemplo. Por isso uma das unidades mais usadas nas especificações de hardware são de frequência, como megahertz (MHz) e gigahertz (GHz), pois indicam quantas vezes por segundo esse componente é capaz de realizar sua função principal e, quanto mais vezes for, potencialmente ele entregará mais performance.
O overclock consiste em modificar o funcionamento do componente eletrônico de forma a buscar alterar essa frequência. Seja aumentando a tensão elétrica, alimentação de energia, eficiência do sistema de resfriamento, entre outros, o objetivo final é subir a frequência e com isso, talvez, conseguir mais performance.
Ao realizar isso, porém, o consumidor tem um efeito que por muitos é ignorado: você pode perder a garantia dependendo do processo utilizado. Entre fabricantes de processadores, isso é unânime: tanto Intel quanto AMD deixam claro que a alteração do funcionamento de seus produtos resulta na perda da garantia:
"(...) qualquer produto modificado ou em funcionamento fora das especificações da Intel disponibilizadas ao público, inclusive onde as frequências do clock ou as tensões foram alteradas (...)"
"AVISO: O uso de overclocking dos processadores AMD, incluindo, sem limitação, alteração de frequências de clock/multiplicadores ou controle de tempo/tensão da memória, para operar além das especificações de design anulará qualquer garantia de produto AMD aplicável, mesmo se o overclocking for ativado via hardware e/ou software da AMD"
Mas já no site da própria AMD informando sobre procedimentos de garantia, vemos algumas coisas interessantes. Primeiro: ninguém mexe nele faz anos, pois as fotos usadas para exemplificar danos são de um CPU de 1999. Segundo: não há menções diretas a overclock. De forma mais genérica, dá para incluí-lo em: "A AMD não se responsabiliza pela garantia se, por meio de testes e exames, a opinião razoável da AMD for de que o defeito ou mau funcionamento alegado da CPU tenha sido causado por uso indevido, negligência, instalação ou teste inadequado", os exemplos usados para recursar a garantia são bastante drásticos, como pinos entortados, processadores lascados (!?) e componentes claramente danificados pelo calor, coisas que nenhum overclock doméstico, sem liberar travas de segurança existentes nesses componentes modernos, causa.
Exemplos de uso indevido do produto, Serviço de garantia AMD

E é aí que está a parte latente do conflito. Mesmo mencionando direta ou indiretamente o overclock como algo a ser enquadrado como "mal uso" pelo consumidor, tanto AMD quanto Intel pareciam aplicar um acordo tácito, escrito em lugar nenhum, que só aplicariam essa cláusula de suas garantias se o consumidor overclockasse seu produto até ele... Bom, aparentemente soltasse uma lasca. E será que ela soltou?
Após contato com a Intel, eles nos passaram que existe um programa de RMA chamado PTPP (Performance Tuning Protection Plan), específico para situações de overclock, mas que deve ser adquirido separadamente. No FAQ um dos pontos que mais chama atenção relacionado a memórias é o que está abaixo:
O "PTPP" cobre overclock através de Intel® XMP?
Se o processador foi overclockado utilizando a tecnologia Intel® Extreme Memory Profile (Intel® XMP), o PTP vai cobrir a garantia do processador, mas não das memórias.

"Deu ruim"! SQN!?
Qualquer membro mais ativo de comunidades de hardware, grupos de Whatsapp e que acompanha canais que falam sobre o assunto sabe que esse artigo não surgiu por geração espontânea, até porque se nada acontece, não é notícia. Foi preciso que o conflito saísse de seu estágio congelado para que a discussão se tornasse relevante, em muitas vezes, não necessariamente sendo uma verdade.
Tudo começa com um problema no RMA passado pelo pessoal da ChipArt. Como explicam no vídeo, um Intel Core i3-8100 que não funciona teve sua garantia recusada em primeiro estágio do processo de RMA pelo seguinte motivo:
"...entre as quais se especifica que a memória suporta é DDR4 2400, e a sua memória RAM é DDR4 2666, o qual forçou o controlador de memória dentro do processador, o mesmo que fazer overclock, lamentavelmente isso invalida a garantia de seu processador".
- trecho da resposta recebida pela ChipArt
Vocês podem conferir no vídeo abaixo a leitura desse trecho:
A alegação feita pela equipe de RMA é que ao montar a máquina com uma memória com operação de 2666MHz, o computador da ChipArt estava fora da especificação da Intel para o modelo Intel Core i3-8100, o que pode ser constatado no site oficial do produto. Como já aconteceu no passado, o vídeo serviu como catalisador de outros casos com outros alegando que receberam mensagens que teriam recebido o pedido para alterar o funcionamento de suas máquinas, limpando o CMOS da BIOS e alterando a frequência de operação da memória.
Abaixo a frequência suportada pelas últimas linhas de processadores Intel e AMD, de acordo com os sites oficiais:
AMD
- Threadripper 3000 = 3200MHz DDR4
- Threadripper 2000 = 2933MHz DDR4
- Threadripper 1000 = 2667MHz DDR4
- Ryzen 3000 = 3200MHz DDR4
- Ryzen 2000 = 2933MHz DDR4
- Ryzen 1000 = 2667MHz DDR4
- FX-9590 / FX-8370 = 1866MHz DDR3
Intel
- Core i9 X de 10ª geração = 2933MHz DDR4
- Core i9, i7 e i5 de 8ª e 9ª geração = 2666MHz DDR4
- Core i3 de 8ª e 9ª geração = 2400MHz DDR4
- Core i3, i5 e i7 de 7ª geração = 2400MHz DDR4 / 1333MHz DDR3L
- Core i3, i5 e i7 de 7ª geração = 2133MHz DDR4 / 1333MHz DDR3L
Até aí não temos um problema. A Intel especifica o funcionamento de sua 8ª geração de processadores mainstream até a faixa dos 2400MHz, logo, não há porque ela garantir estabilidade e funcionamento pleno do sistema se o consumidor fizer qualquer modificação nesse sentido. Porém, recusar a garantia, afirmando que ao usar uma memória mais rápida ele teria danificado o produto, abre uma Caixa de Pandora que não devia ter sido aberta.
Vale deixar claro que o vídeo sugere por diversas vezes que "esse será o procedimento adotado pelo RMA", em outros momentos questiona se esse será o procedimento, e até em alguns momentos fala que pode ser um simples erro de resposta de quem ficou responsável pela resposta desse RMA em questão.
Entramos em contato com a Pichau que é uma das grandes revendas do país para saber se eles já tiveram algum problema parecido. Informaram que nunca tiveram RMA negado, tanto de AMD como Intel, por situação semelhante relacionada à frequência de memórias.

Marketing vs Realidade
A garantia de um consumidor por alterar o funcionamento de seu produto cria uma situação de conflito entre duas equipes de comunicação: o time de marketing e o time de RMA. A indústria de hardware para PC sempre se apoiou no conceito de performance, e não à toa associa suas marcas a conceitos como velocidade, como a parceria da AMD com equipes de Fórmula 1 - agora com a Mercedes-AMG.
Nessa narrativa, o overclock é sempre usado com pitadas de "charme", com linguagens como "leve seu PC ao Extremo", e até forma de "personalizar seu PC". Podem acompanhar o gerador de lero lero na print abaixo, do próprio site da Intel dedicado a falar do tópico:
Olhares mais atentos já devem ter percebido que há notas de rodapé, e não vai pegar ninguém de surpresa o conteúdo escrito nas letrinhas pequenas da anotação 3:
Nenhum produto ou componente pode ser totalmente seguro. Alterar a frequência ou a voltagem do relógio poderá danificar ou reduzir a vida útil do processador e de outros componentes do sistema, e poderá reduzir também a estabilidade e o desempenho do processador. As garantias do produto podem não se aplicar se o processador estiver operando além de suas especificações. Verifique com os fabricantes do sistema e de componentes para obter detalhes adicionais.
Nota de rodapé 3, hotsite sobre overclock da Intel
Então há um óbvio contra-senso acontecendo aqui. Por um lado essas empresas destacam a possibilidade de overclock como um diferencial de seu produto em letras garrafais no topo, mas o fim da garantia está em um texto com 1/4 do tamanho e nas notas de rodapé.
Informações contraditórias geram uma baita confusão, uma hora não tem garantia, em outra tem
No site sobre XMP a Intel fala que utilizar XMP acima do suportado pelos processadores perde a garantia, já no site específico do programa "Tuning Plan" ela fala que usando o XMP a garantia não é afetada. Uma bela confusão já que as informações são diretamente conflitantes. 
Vejam a confusão gerada através de informações desencontradas. Em alguns casos overclock é vendido como um dos recursos extras que o cliente obtém por adquirir um produto mais caro. Enquanto os modelos travados para overclock são exceção hoje na linha AMD Ryzen, na Intel são somente alguns modelos, indicados pelo sufixo K em seu nome, que permitem alteração das frequências e justamente são os modelos mais caros e de melhor performance.
A Intel também restringe as mudanças das frequências para chipsets específicos de placas-mãe, se quer mais desempenho, precisa optar por placas-mãe com chipsets que trazem essa features desbloqueadas.
Aplicando uma política de não aceitar RMA relacionado à frequência sugerida para o processador em questão, não afeta a empresa apenas para os consumidores mais exigentes e que pagaram mais caro, o que por si só já é uma péssima estratégia, mas atinge também seus parceiros. AMD e Intel construíram um ecossistema onde suas parceiras fabricantes de placas-mãe têm como forte argumento de venda de seus produtos topo de linha, além de uma grande quantidade de recursos, um sistema potente de alimentação e estabilidade voltado para memórias mais rápidas. Isso não é algo feito por uma fabricante isolada, então é fácil ver nos anúncios de produtos da AsusGigabyte e MSI, por exemplo, essas características.
Toda uma indústria de memórias mais rápidas também se construiu em torno desse conceito, com fabricantes oferecendo kits cada vez mais rápidos. Esse processo já está tão avançado que temos até uma certa maturidade nele: memórias que ultrapassam as especificações sugeridas pelas fabricantes não são caras, com kits de 3000MHz, consideravelmente acima dos 2666MHz dos processadores 9000 da linha Intel Core, já sendo algo bem acessível. Essa "treta" inaugurou o conceito de "memórias de perder garantia". 
Outro fator agravante (a essa altura não tenho mais lembrança de quantos já foram enumerados) é que a própria Intel controla totalmente o ecossistema, com direito ao Intel Extreme Memory Profile. Essa iniciativa possibilitou a fabricantes validarem suas memórias para operarem em configurações de frequências e timings de mais performance, criando perfis prontos para serem aplicados pelo consumidor, muitas delas bem acima das especificações da própria Intel. Novamente, temos duas mensagens bem diferentes sobre o assunto no site oficial sobre o Intel XMP, uma em letras destacadas:
Reparem na informação que consta no site lá embaixo, depois de alguns cliques e de abrir algumas abas inicialmente ocultas e em uma fonte consideravelmente menor:
"Habilitar e usar o Intel XMP é um tipo de overclocking e, finalmente, anulará a garantia da CPU. Alterar a frequência ou a voltagem do relógio poderá danificar ou reduzir a vida útil do processador e de outros componentes do sistema, e poderá reduzir também a estabilidade e o desempenho do processador. As garantias do produto podem não se aplicar se o processador estiver operando além de suas especificações."
- Nota de rodapé 1 do site oficial Intel XMP
Não suporta RMA! Suporta RMA! Não suporta RMA! Suporta RMA! Oras, suporta ou não?
Por incrível que pareça, ainda não terminamos de cavar esse buraco. Ainda há um conjunto de tecnologias e recursos feitos pelas fabricantes que colocam mais algumas batidas com a pá nesse chão. Tanto Intel quanto AMD possuem um conjunto de softwares para auxiliar o consumidor a realizar o overclock. Apesar que, nesse caso, especialmente na situação da AMD, ninguém pode dizer que ela não avisou já que essa tela é a primeira coisa a surgir quando você abre o Ryzen Master:
O agravante nesses softwares é que alguns prometem automatizar esse overclock novamente vendendo a ideia de praticidade e ganhos ao consumidor, e fazendo pouco caso da perda da garantia. No caso da Intel, temos o Intel Performance Maximizer, um recurso que com apenas um clique parece que vai transformar seu PC, ao menos considerando o vídeo de demonstração:
O número de vezes que a perda de garantia é mencionada retorna algo conhecido na matemática como "conjunto vazio". Mas até mesmo nos vídeos temos letrinhas pequenas, que surgem em 00:56 (tradução livre):
"Alterar a frequência do clock ou tensão pode danificar ou reduzir a vida útil do processador e outros componentes do sistema, e pode reduzir a estabilidade e performance do sistema. Garantias de produto podem não se aplicar se o processador foi utilizado além de suas especificações."
- nota final número 4 do vídeo Introducing Intel Performance Maximizer
Neste cenário a AMD tem uma postura semelhante. O Precision Boost Overdrive da empresa possibilita aumentar o desempenho de forma automatizada, em um vídeo um pouco mais longo mas que, mesmo assim, não reservou espaço para falar da perda da garantia. Claro, há espaço para isso nos segundos finais em letras miudinhas que aparecem na tela.

E agora?
Há anos convivemos com esse dilema. De um lado o marketing e o pessoal de vendas chega empolgado para nos contar sobre os benefícios do overclock e a possibilidade de termos computadores ainda melhores, mas o "caldo nunca entornou" porque o risco de perder a garantia por esse processo parecia algo limitado a apenas os consumidores que ultrapassassem todos os limites, ignorando qualquer segurança que os próprios softwares das fabricantes trazem como medida de proteção, e realmente fazendo um uso abusivo de seus componentes.
Modo como funciona garantia e como marketing usa overclock gera confusão e dúvidas
Na nossa concepção, e aqui falamos tanto como consumidores de tecnologia quanto comunicadores da área, as empresas não apenas "faziam vista grossa" para o consumidor que experimentava um overclock dentro de margens seguras: elas incentivavam esse comportamento, com softwares cada dia mais acessíveis e intuitivos além de iniciativas como o Intel XMP. Porém o principal problema de tudo é a quantidade de informações contraditórias no site da Intel, em boa parte dos locais falando que não tem suporte a overclock via XMP, mas em outros locais falando que existe o suporte a RMA se utilizado o overclock via XMP.
Mesmo com essas informações desencontradas, o pedido de garantia não parece ser um problema, nos baseando em relatos em grupos hardware e feedback das lojas especializadas, mas certamente tudo é muito confuso e gerou essa bagunça que não é interessante principalmente para a principal envolvida nesse caso, a Intel. Abaixo o posicionamento que a empresa passou pouco antes da publicação desse artigo:
"Em resposta às preocupações recentes, é verdade que vários sistemas (como desktops e notebooks) podem ser personalizados pelos fabricantes de PCs (OEM) ou pelos clientes e configurados com módulos de memória que suportam frequências excedendo a especificada para o processador da Intel. A capacidade de frequência do módulo de memória mais alta, por si só, não anula a garantia da Intel, a menos que o sistema esteja configurado para trabalhar numa frequência de memória mais alta do que a especificação do processador Intel.
Nossas informações sobre garantia de produtos estão documentadas e disponíveis em nosso website. Quando um sistema é configurado para alterar a frequência de memória padrão do processador por meio do Intel® Extreme Memory Profile (XMP) ou por qualquer outro meio, a garantia não é mais válida conforme declarado historicamente na nossa garantia do processador e na documentação XMP.
Para os clientes que desejam fazer overclocking, a Intel oferece o plano opcional Intel® Performance Tuning Protection Plan para determinadas SKUs, que cobre o processador em caso de falha por overclocking e deve ser adquirido separadamente. Para mais informações, incluindo a lista de SKUs elegíveis e termos e condições desse plano, visite https://click.intel.com/tuningplan/."
Felizmente para o consumidor e para a própria Intel a regra de não aceitar RMA para situações como essa não se aplica na prática, foi um caso de problema isolado ou simplesmente um erro de comunicação, mas muita coisa terá que ser repensada. Se a restrição das frequências dos processadores valesse à risca do que está nos sites oficiais, veja o complicador em um caso como o nosso: hoje testamos com memórias configuradas a 3200MHz, uma frequência validada apenas para processadores Ryzen a partir da série 3000. E pior, o que vamos fazer? Baixar todos nossos testes para 2666MHz, a frequência suportada nas memórias pela Intel em processadores recentes e permitir uma disputa justa nas memórias? Ou fazer AMD Ryzen 3000 em 3200MHz, 2000 em 2933MHz, 1000 em 2666MHz, Intel em 2666MHz e 2400MHz e fazer uma disputa justa de acordo com a politica de validação mais favorável do "lado vermelho da força"? Nenhuma das respostas parece boa.
Resumindo
Até hoje, o overclock de componentes não parece ter sido um fator para invalidar a garantia deles, pelo menos não na maioria dos casos. E isso falamos nos baseando em experiência própria, de colegas, de lojas e de usuários. Mas - e este "mas" é bem importante - tanto Intel como AMD tentam preservar uma chance de invalidar a garantia em situações de overclock. E no caso da Intel isso fica especialmente complicado por causa da limitação dos clocks das memórias e de seu modelo de comércio de processadores da série K, e parece que os avisos vêm sempre em letras miúdas. Por bem ou por mal, até o momento nada indica que a empresa vai mudar como pratica seu RMA de hoje em diante.


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